sábado, 24 de março de 2012

Como uma Ilha


É desconcertante, a postura que assumimos quando tocam em nossas paixões, nosso lugar de fala e de construção social, em especial quando o foco são as estruturas e certezas que estabelecemos em nosso decurso existencial  na terra. Apegados às referências que criamos, depositamos no que materializamos durante a vida, mesmo quanto este produto são pessoas como nós, às certezas que estabelecemos como prioridades. Negligenciamos muitas vezes, a individualidade de uma dialética pessoal que possibilita transformações diárias nas pessoas que vivem em nosso entrono, desconsiderando até nossas próprias subjetividades...

Essa noite me sentindo como uma ilha deserta, vazia de interesses e movimentações, me peguei refletindo sobre as trajetórias que tenho feito e aos apoios que tenho usado para dar continuidade a minha caminhada pessoal... Cercado por um oceano de pessoas, que se amontoam nesta cidade quente, não tenho encontrado possibilidades de incursões, senão de ceder a alguns/as navegantes solitários/as, que curiosos/as usam o telefone e/ou computador para se comunicar comigo. Da mesma forma eu, me apego a estas mesmas estratégias ao usar essa plataforma para me comunicar com o mundo. Permito assim que atraquem em um lugar desconhecido ou bem definido de mim, e nesta postura encontro alivio ou anestesia para sinto-me melhor, pelo menos em companhia em peculiares e inevitáveis momentos...

Engraçado isso, embora também violento... Coisas que nos permitimos fazer e sentir...

Conversas extensas ao telefone, horas e mais horas dedicadas em frente ao computador, dias de leituras intensas a fim de encontrar uma epistemologia capaz de suprir carências, levam-me para um lugar cada vez mais distante do continente humano, fazendo-me uma ilha perdida em meio a vastidão dos interesses e de uma mente subversiva, reacionária e prolixa, e por isso íntegra e fiel a sua formação...
Meu irmão Marquim e sua namorada Adriana na trilha da Praia Vermelha/RJ
Ao fundo uma Ilha...

Surpreendido por um psicanalista contemporâneo essa semana, que definiu o Amor como um “Truque” da estratégia humana (http://www.youtube.com/watch?v=RhbrgFYFSU0), fiquei reflexivo sobre tamanha ousadia no pensamento. Achei a priori o conceito ousado e tive restrições, mas a excitação gerada foi  inevitável, e logo desejei acessar a compreensão.  Contardo Calligaris discorre de forma interessante sobre a subjetividade da mente humana e explica que apropriamos do que identificamos como amor, fazendo dele um “Truque” bom, uma ferramenta narcisista/hedonista de conquista para chegarmos onde queremos ou necessitamos. Ressalta que a pessoa que julgamos amar não tem tanta importância neste processo, e percebi de pois de refletir um pouco sobre, que essa teoria tem lá suas procedências em mim... rsrsrsrsrsrrsrsrs...

Tratamos com carinhos mais ofegantes quando queremos algo dos nossos pais, amigos, parceiros sexuais, amantes, filhos, patrão, professores até mesmo a Deus quando o negócio está sério demais; Surpreendemos quem temos como especial, com presentes ou ações delicadas para fazermos se apaixonar mais por nós; Demonstramos mais compreensão, quando o que está em jogo é uma possível ruptura;  Decidimos até mudar nosso posicionamento político, para provarmos nosso amor, aí fazemos juras rsrsrsrrsrsrs. O interessante nas palavras do psicanalista é que fazemos isso para nós mesmo "um circuito fechado", onde o outro para quem dedicamos tamanhas atitudes não tem tanta importância...

Achei coerência em alguns pontos de vista de Calligaris, o que me fez certificar do quanto a prática do exercício do que amo é capaz tem me fechado em um corpo ilhado, ainda que rodeado por pessoas e imagens, sento-me só boa parte do tempo. Há quem diga que a internet deixou a solidão no século passado, outros/as antagonicamente são solidários à compreensão de que a internet dar provas reais ao isolamento humano.   

O fato é que Calligaris, ao falar do amor como um “Truque” de nossas estratégias, apresenta o desejo pessoal como vetor principal de nossas motivações, o que nos faz criar, desenvolver e aperfeiçoar práticas de conquista e sedução junto ao que desejamos alcançar, e isso indubitavelmente nos tornam ilhas...   

Minha prática pessoal tem circunscrito a dois dias semanais (segunda e quarta), o tempo dedicado a trocas empíricas com pessoas, e acredite, há quem resume isso há menos tempo que eu... O resto se estabelece por telefones e pela internet. Sinto-me após algumas reflexões nesta direção, uma ilha, mas quero ser também um porto seguro.

Não importo que para isso, eu necessite usar estratégias hedonistas/narcisistas, "Truques", para conquistar tal objetivo, não me importo. A apropriação do amor como truque ou como qualquer outra forma esquizofrênica de ser, vale, para estar em companhia e não sentir-se como em uma ilha deserta...

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