quarta-feira, 12 de setembro de 2012

Vida de gato Preto: algumas realidades questionáveis



A gata preta demonstra preferência pelo gato preto, e permite que ele se enrosque em seu pescoço. Ele se delicia naqueles pêlos aveludados que só a gata preta possui, mas não perde de vista que ela tem seus projetos pessoais.


Um dia a gata é aprovada em concurso público, passa a viver em outro Estado. O gato se frustra. Namorar à distancia é caro, exige mais dedicação ao trabalho. Ele não consegue acompanhar a dinâmica e a inteligência da gata preta e sabe que o trabalho nunca foi o seu forte.  A gata desconsiderando a princípio a falta de empenho se esforça em fazer visitas com freqüência, porém não visualizando feedback passa a responder às exigências do trabalho que a suga cada vez mais e mais e o desejo pelo gato preto se dilui no descompasso do ritmo, que do lado do gato preto é infinitamente mais lento.

Entrementes, o gato preto olha para todos os lados à procura de uma parceira na qual consiga compartilhar sua vida, sem a quebra de sua inércia, que é lenta. Como o mercado afetivo está em falta para as gatas, pois, a caça aos gatos - que tem privilegiado os gatos e pretos da periferia - um coeficiente que é negativo aos gatos pretos, paradoxalmente também o é positivo na matéria de relacionamentos, aumentando a concorrência aos gatos pretos sobreviventes. O mercado afetivo, fraco para gatas de todas as raças e cores, não possibilita dificuldades ao gato preto, que ainda pode escolher e o faz investindo toda sua lábia na gata mestiça, que é mais mansa, e não exige tanto o trabalho como a gata preta. Habitante da mesma cidade parece disposta a amá-lo e eles se entregam. Incondicionalmente, como precisam e desejam. Conquista a gata mestiça, ele se esparrama em seu sofá e toma posse do controle remoto da televisão, som, e do ar condicionado. Deseja assistir o futebol, no horário do programa favorito da gata mestiça, que acompanhava todas as noites até antes da chegada do gato preto em sua vida. Nada conta à gata preta, mas a gata descobre que o gato preto havia sido largado por uma outra e preta e descobre que seu gato, além de folgado, também é desleal, conformes fontes secretas do faceboock felino e manda-o pastar.




Humilhado, mas consciente de seu poder de sedução e do privilégio de estar vivo, ele passeia entre tons mais claros de felinas, escolhido a dedo no cartel de cores. Não se esforça muito, pois, falta gato até para os gatos. O gato preto sabe que trabalhar não apetece seus instintos, não sabe como fazê-lo e decide não se esforçar para segui-lo. No histórico recente, pulou do futebol para o rap, flertou com o funk e agora é pagodeiro. Em ambos espaços dançou conforme a música, e sempre se deu bem, pois, o sistema patriargato está a seu favor... Se aventura no sonho de ser famoso e estrelar uma edição da Caras dos Felinos, acha que assim pode provar para si mesmo e para a gata preta que o deixou no passado que conseguira evoluir. Suas frustrações o perseguem...


No pagode conhece a gata ideal. Preta, gringa e bem sucedida. Nem dá adeus à outra gata que estava no momento e jogo seu poder de sedução, conquista a gata nova. Ele é o príncipe, por quem ela ansiara toda a vida, e seu ritmo lento e manso na vida real era compensado pelas suas performances e beleza...



Os dois namoram como gatos no cio. O esperado, na idade fértil dela acontece, gatinhos à vista. Ela pensa que não pode viver sem ele e agora com um filho, formarão uma família. Outro sonho realizado. Precisam ficar juntos. Cumpre levá-lo para a Gringolândia. Tudo que ele mais queria. Sombra e água fresca...



No começo, doces são os planos e insaciável o sexo. O gato preto, encantado com o mundo gringo, precisa de tempo para adaptar-se. Ela compreende. Nesse intervalo, o gato não trabalha, estuda gringolês pela TV, arruma a casa, malham os músculos, afinal essa vaidade ele nunca pudera perder e espera a gata chegar do trabalho com a comida pronta. Aguarda que os demais da Gringolândia, reconheçam seu valor de gato especial, como sua gata em casa.



Nasce o primeiro herdeiro e há notícias de que a gata gringa gesta o segundo. Em silêncio desesperançado, ela observa, reiteradas vezes, o gato amado rejeitar a ocupação de caça-ratos, que poderia ajudá-la a comprar a ração das crias. Assusta com sua passividade perante a vida. Ele sem saber ao certo como desenrolar os trabalhos domésticos terá agora que assumir a educação dos filhotes pequenos. Aí percebe o quanto pesa o nome “do lar”.


Ele, com dois gatinhos novos em casa, dá-se conta de que as mordomias de gatão mimado estão diminuindo. A disponibilidade para o sexo não é a mesma, pois ao final do dia ele está acabado de tanto cansado, então começa a estudar outras formas de miar em outros telhados, pois não sabe da existência de novas gatolinidades desenvolvidas para os gatos modernos, então, mergulha em sua covardia. Está à espreita de uma gata branca, desprezada pelos gatões tipo alfa do pedaço, mas que já alcançou uma certa condição estável financeiramente falando, e parece que já tem uma miando em sua direção. Haja o que houver, está decidido a fincar garras na Gringolândia, e assim o faz, pois, o mercado afetivo está ao seu favor. Uma perversa, porém, doce prisão...

2 comentários:

  1. Muito interessante o paralelo que você fez. A comparação me lembrou do livro "A revolução dos bichos" de George Orwell. Seu texto retrata bem alguns dos ângulos da realidade em que vivemos, numa situação que mescla interesses em conformidade com a oferta de demanda, isto é, uma versão da nossa presente globalização que exportou as ideias de individualismo e capitalismo. O "pulo do gato", aqui, está na busca de como levar a vida que se quer de acordo com o que o mundo nos apresenta, de ter as manhas para se obter o que deseja, se aproveitando da já dada configuração da vida.
    Parabéns pela original ideia e por tê-la traduzido às questões dos dias atuais!
    abs,
    Katia

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